"Gosto de um modo carinhoso do inacabado, do malfeito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai sem graça no chão." Clarice Lispector
terça-feira, 22 de julho de 2014
Constantemente
Por um momento sim. - ele respondeu secamente.
Mais do que a mim?
Nem mais nem menos. Amei diferente.
Ela se ajeitou na cama. Estava de meias mas sentia muito frio.
Diferente como? - insistiu.
Amei sem medo.
Você tem medo de mim?
Tenho medo de te perder. Quanto a ela...nunca tive receio algum.
Ele tomou um gole do café preto já gelado que esquecera ao alcance das mãos.
Você me traiu...- ela disse, ameaçando um choro.
Traí a nós dois... - ele retrucou evasivo.
Não posso suportar isso.
Eu sei que não.
Você me jurou amor eterno...
Ele a encarou por um momento numa tentativa frustrada de memorizar sua feição. O nariz fino tão cheio de rinite que não o deixou dormir por noites. Os olhos separados numa harmonia particular que gerava estranheza e charme. E a boca bem desenhada que ele tentou inúmeras vezes reproduzir num papel.
Eu te amo eternamente... - respondeu
mas não te amo constantemente.
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
Ana
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Negócios
- "Me dê mais um tempo, ok? Já estou quase pronto."
Ela apagou o cigarro na escrivaninha ao lado, bufando impaciente.
-"Você sempre faz isso", resmungou baixo.
- "Isso o que?", ele perguntou sem entusiasmo.
-"Isso...isso. Me deixar esperando. Me efria. Me broxa. Você é um merda."
- "Mas você me ama, baby."
- "Amor? Eu nunca falei em amor. Você sempre faz isso também. Isiste nessa porcaria de amor"
Ele riu sem graça.
-"Está rindo do que? Qual é a sua?"
-"Não é nada. É só que..."
- "Lá vem você...Desembucha."
-"Diz que me ama?"
Ficou muda por um instante.
-"Você sabe que sim. Eu te amo, querido."
-"Obrigado. Quanto é que lhe devo?"
-"Mas nós ainda não...quer dizer..você ainda não....Eu ainda não fiz meu trabalho..."
-"Esqueça, baby. Hoje eu lhe contratei apenas para me amar."
Silêncio.
-"220"
Ele depositou a quantia na escrivaninha e voltou para o banheiro.
Ela levantou-se séria, e acendeu outro cigarro.
Virou-se para ele antes de fechar a porta com força:
-"Você sempre faz isso. Sempre..."
Para ler ouvindo 3 na Massa - "Lágrimas Pretas" (agora no playlist ao lado)
terça-feira, 11 de maio de 2010
À parte

quinta-feira, 29 de abril de 2010
Ensaio sobre o amor

segunda-feira, 8 de março de 2010
Um belo dia

“Pelando!”
Não fazia tempo que sentira aquilo pela ultima vez, ela confessou a si. Mas agora lhe parecia especialmente novo.
Agora que estava em cima de seu horário, não queria mais perder tempo algum.
Perder?
Nenhum tempo fora perdido.
Valeu a pena cada segundo,e estava prestes a comprovar isso.
Lá fora, um dia lindo.
Ansioso?
Talvez.
Ela, certamente.
Abraçou-o disfarçando e comentou algo sem sentido, desconversando.
“E então?”, ele perguntou, tocando no devido assunto.
Pensou.
Encarou-o.
sábado, 14 de novembro de 2009
Meu desabafo...
"Tudo tem seu tempo..."
Apego-me a isso pra esperar...
e esperar...
Muitas vezes, e hoje mesmo, desejei a felicidade alheia pra mim.
Me perguntei de vez em quando se eu também não não tenho o direito de ser "a bola da vez".
Se isso tudo vai se ajeitar.
Se outros sorrisos farão tanto sentido.
Se outras baboseiras tarde da noite me farão segurar o sono até as 2 da madrugada.
se histórias tão empolgantes, conversas tão sinceras, trocas de elogios tão criativas (rs), implicância...se tudo isso vai vir de novo, na hora certa, pra dessa vez ser meu.
Só meu.
Pergunto-me se vai demorar muito pra não precisar mais guardar só pra mim isso tudo que tenho vontade de declarar feliz aos quatro ventos, e que muita gente diz apenas para eu "esquecer", como se sentimentos fossem consultas médicas, que você esquece e pode simplesmente remarcar na hora que achar necessário.
Eu não sei.
Mas hoje eu li um post...
Li um post que falava de tempo, de espera.
Falava de superação e de distância.
Falava de amor.
E esse post me fez sentir dó.
Mas não aquela dó medíocre. Dó por um dia eu ter desejado o seu lugar.
Dó por achar que todos os problemas do mundo estão sobre minhas costas, e que eu tenho mesmo é que pensar mais em mim.
Talvez eu só tenha que aprender algo que ela já aprendeu, depois de passar por coisas tão dificeis quanto as minhas.
Talvez eu só não esteja madura o suficiente para encarar as dificuldades camufladas na felicidade quase plena de um sentimento correspondido.
Eu não quero mal a ninguém. Só quero bem a mim.
E continuo apaixonada.
Perdidamente apaixonada.
Mas isso.....
Isso não vem ao caso.
segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009
And the Oscar goes to...

Eu ganhei um Selinhoooo.
O 1º do blog =]
Obrigada Marcella, a menina que fala sobre Coração como quem conta um caso em uma mesa de bar. (seu cantinho é http://maisq1historia.blogspot.com/)
Regras:
1 -Postar a imagem do selo e o link de quem te enviou no seu post;
2- Repassar para quantas pessoas achar que deve! (nada de números pré definidos de blogs a serem presenteados)
3- Escrever uma frase que você goste!!
Minhas Frases:
"Gosto de um jeito carinhoso do inacabado, do mal feito, daquilo que desajeitadamente tenta um pequeno vôo e cai, sem graça, no chão" - C. Lispector
"O que obviamente não presta sempre me interessou muito"- C. Lispector
" Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar" - Neil Gaiman
Eu indico:
Paula Barboni : http://linha-vermelha.blogspot.com/
Rosália Cipriano: http://rosaliacipriano.blogspot.com/
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009
Um texto sobre desamor.
Beltrano, por sua vez, tateou o escuro a procura de segurança.
Fulano ria, divertia-se.
Beltrano tremia, sofria.
Nervoso, soltou um leve gemido, indicando que para ele, a diversão havia acabado.
Fulano esbaforiu-se numa risada sarcástica, quase maldita.
Virou-se.
Saiu.
Sumiu.
Beltrano continuou a tatear. Nada achou.
Desistiu.
terça-feira, 11 de novembro de 2008
Território inexplorado

Em dez anos de carreira Lúcia nunca havia escrito em primeira pessoa.
Os anseios, os dramas e até mesmo as alegrias ela conseguia de forma quase inerte transferir a um personagem delicadamente criado pela sua nobre imaginação de escritora.
Naquele dia, porém, ela resolveu falar de si.
Postou-se diante do computador com certo nervosismo.
As mãos suavam discretamente, acusando a tensão acentuada pelos olhos.
Sentiu-se em um confessionário, mas não se deixou abater.
Digitou as primeiras palavras: “Hoje eu...”
Recuou.
Recomeçou: “Por hora eu...”
Parou.
“Eu!”
...
“Eu me julgo certa do que digo e escrevo. Eu me sinto dona de cada vírgula e desenho palavras como quem troca de roupas.
Eu me perco em universos criados por mim mesma, e dou a cada texto um “eu” diferente, um “eu” adequado.
Mas hoje resolvi falar do meu eu. Daquele que talvez por covardia nunca tenha expressado em nenhuma obra. Daquele que por simples infantilidade ou por doce meninice eu guarde apenas para mim. Como um brinquedo tão legal que você se recusa a dividir com amigos. È melhor mantê-lo na caixa garantindo sua durabilidade, do que usar de suas funções sujeitando-o ao estrago.
É isso.
O medo de estragar o “eu” me fez usar sempre “eles”.
Hoje, no entanto, aos 43 anos de idade, me sinto na obrigação de dar continuidade a esse texto, tantas vezes iniciado, mas sempre (sempre!) abortado.
Esperei ansiosa pelo momento em que me encorajaria a falar de mim.
Mas agora, diante desse cursor que pisca incansavelmente ao aguardo do próximo digito, eu concluo de forma triste que não sei quem realmente sou.
Talvez por isso, por tanto tempo, eu tenha dedicado minha criatividade a terceiros, que carinhosamente eu chamo de personagens.
Frustrados?
Eu mais.
Falar de si é explorar o mais terrível dos territórios, e diante disso, prefiro considerar-me um território inexplorável.”
Ao terminar, de forma cautelosa, ela revisou cada palavra.
Sim! Era exatamente o que queria dizer. Justificou a todos os motivos pelos quais nunca antes havia escrito em primeira pessoa.
Território inexplorável....
Leu-o novamente.
Sentiu o fardo de se declarar, de se afirmar.
Com as mãos trêmulas envolveu o texto em aspas, seguindo-se de uma vírgula e os dizeres “afirmou ela”.
Pronto.
Livrou-se novamente da responsabilidade.
O texto sobre Lúcia terá de aguardar uma próxima oportunidade.
Ou, quem sabe, só um pouco de coragem.
sábado, 8 de novembro de 2008
TPM
Manchas surgiam por toda parte de seu rosto, decorrentes do estresse dos últimos dias.
Trabalho, casa, crianças.
Tudo lhe soava como uma cruel tortura imposta a esse nobre ser humano por um Deus absurdamente insensível.
Como se não bastasse, tinha por obrigação que manter uma vida social ativa e saudável. As pessoas costumam cobrar isso, crentes de que a boemia e a libertinagem esporádica são características típicas do bom cidadão pagador de contas. Uma obrigação de lazer. Uma obrigação de simpatia.
O mundo lhe parecia agora uma grande esfera inútil girando sozinha e feliz em torno de uma bola de fogo gigante e (claro!) estupidamente quente. Só isso. O ceticismo acompanhava fielmente seus passos arrastados com aqueles chinelos de pano que completavam seu modelito de derrota. O calor irritava. O frio também.
Ah...maldita TPM.
Como é que as mulheres agüentam isso?
Ele também não sabia, mas se não fosse homem, certamente estaria “naqueles dias”.
** Um texto pra descontrair **
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Azul

A maquiagem branca lhe dominava a face, acentuando o contorno da boca: Bela, sensual.
Parada diante do espelho iluminado ela se olhava com um quê de vaidade e zelo. Era quase um ritual; era quase religioso.
Cada risco traçado pelo lápis negro desenhava um segundo a menos no tempo que lhe restava.
Não gostava de fato.
Não se orgulhava daquilo enquanto se preparava.
O olho tremia, pronto para revelar uma lágrima.
Segurou.
Tantas não rolaram, não seria essa...
Levantou-se devagar e caminhou até o grande armário posicionado às suas costas.
Abriu-o com cuidado, evitando ruídos. Quebrar o silencio lhe daria a impressão de que havia mais alguém no quarto, testemunhando o que ela mesma não gostaria de presenciar.
A mão imediatamente lançou-se para dentro do guarda roupas e arrancou do cabide um belo vestido vermelho. - “Hoje é o dia do vermelho”
Era rotineiro. A vaidade que outrora a manteve horas escolhendo o modelo, agora dava lugar ao costume e a agilidade, como um veterano de guerra que não mais hesita em puxar o gatilho.
Era isso.
Cada escolha era um tiro com o cano apontado pra própria garganta.
A cada bala, uma vítima e um assassino.
Sempre ela nos dois papéis.
Vestiu-se com pressa, dando conta de que se perdera em seus pensamentos.
Uma última olhada no espelho para encarar sua imagem e conferir a maquiagem.
- “Um pouco borrada”.
Levou os dedos de unhas longas até o olho e limpou a borda. “O que eles pensariam se me vissem assim?”. Inalou com gosto o que restava do seu bento pó branco, como se mandasse para dentro uma farta dose de coragem.
Fora dali, as vozes excitadas conversavam em tom alto.
Risadas, piadas. Diversão para uns, sacrifício para outros.
Dinheiro.
Calçou enfim os sapatos altos e retirou-se do camarim.
Ela conhecia o caminho mesmo com todas as luzes apagadas.
Era rotineiro...
Pernas.
Boca.
Seios.
Aplausos.
Hora de voltar para casa. Hora de encarar os filhos e inventar uma nova historia sobre seu "honroso trabalho no museu".
Mas antes disso ela passou a ferro um outro vestido.
Amanhã seria o dia do azul.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Confissão

“ Senhores jurados, boa noite.
Lá fora faz frio, e dentro de mim também.
Passei a madrugada a analisar meus medos, e, pasmem, descobri que tenho muitos.
Por muito tempo essa minha vida solteira me satisfez: Estar aqui e viver só pra mim. Depositar as alegrias em noites regadas a risos e gargalhadas com os amigos. Viver em uma insanidade satisfatória, dormir com um, acordar com outro, olhar pra vários deles e responder sempre sorrindo que “não” quando me perguntam se sou comprometida.
Ontem, porém, choveu durante a noite. Cheguei em casa encharcada depois de um dia cansativo. Tirei os sapatos feliz, soltei a presilha dos cabelos e enrolei-me em um cobertor felpudo. Não liguei a TV, não liguei o rádio. Dediquei-me a ouvir o silencio, e só. Triste, notei que ele estava de fato lá...o silêncio.
Nem se quer o telefone deu o ar de sua graça.
Ninguém a quem avisar que já cheguei em casa. Ninguém com quem enrolar no celular no simples ato de dar tchau.
Ninguém pra quem deixar de ser a mulher moderna de terninho, e ser só aquela de pijamas e dor de cabeça pré-sono.
Sabem...Às vezes cansa não ser de alguém. É como não ser tirada para dançar em um baile ginasial. Nunca passei por isso, porque faz parte da cultura americana, mas imagino que seja assim: Permanecer sentada sem que alguém a escolha, ouvindo o DJ trocar as músicas para os outros, enquanto você apenas balança os pés, sempre no mesmo ritmo.
Mentira da minha parte se disser que não me basto. Me basto sim para minha subsistência. Respirar e andar eu faço por mim mesma. Mas qualquer brilho além disso depende de uma companhia que não acho...que não me acha.
Não queria fazer do amor uma necessidade. Seria mais poético imaginá-lo como um dom. Mas a poesia foge de mim como os demônios da cruz, e hoje eu digo acanhada que na noite anterior me bateu uma solidão inexplicável.
Atesto, portanto, minha fragilidade. Não nego minha feminilidade excessiva, se isso for privilégio somente das mulheres.
Confesso meu temor, minhas necessidades. Preciso de alguém.
Os pulmões vão bem, obrigada. Mas o coração...
Esse tem apenas bobeado sangue, quando na vida aprendemos que a ele cabem muitas outras funções.
Finalizo por aqui, e me abro as críticas, aos conselhos...e a seus nobres julgamentos.
Atenciosamente,
A Autora "
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Pin Up
Aquele cabelo ondulado, levemente caído sobre o busto....Suas pernas bem torneadas que terminavam em um belo sapato preto, alto, envernizado.
Estava apaixonado por ela. Era certo que estava.
Mais do que por todas as outras que amou. Ela lhe despertava um desejo incontrolável e uma alegria desesperadora.
Deslizou os olhos sobre cada parte deslumbrante do que estava vendo, e de repente, parou.
segunda-feira, 21 de abril de 2008
A Foto
Passara por isso mais vezes, oras. Por que é que agora lhe parecia tão difícil?
Mas não conseguia.
Parado abaixo dos dois o acompanhante canino admirava o beijo...aquele mesmo beijo que vira todos os dias nos últimos três anos. O que ele, de fato, nunca enxergaria era a quantidade de borboletas que tomava conta dela cada vez que esse momento mágico se repetia.
P.S: É tudo o que imagino olhando essa imagem ^^
Foto: Henry Cartier Bresson
sexta-feira, 4 de abril de 2008
Vontade...

Vontade de deitar e acordar só amanhã. Mas de deitar acompanhada, aconchegada, aninhada.
Deve ser o frio. O frio lá fora, o frio aqui dentro. Em toda parte.
Queria só saber como lhe explicar, e ter razão ao falar.mas não.
O medo só é gerado pela certeza do erro.Erro bobo.
Erro feio.
Erro criado, imaginado, planejado e executado.
Nada tem a intensidade que achamos que tem.Por exemplo a mentira. Ela tem pernas curtas e proporções longas.
Eu menti...
E agora entendi a verdade que acabei por arruinar.
Uma certeza chata de que errar não é humano.
A sensação concreta de que a vida é uma peça de teatro que não nos permite ensaios. E eu?
Eu falhei na primeira apresentação.
Agora só me resta acertar na sessão de domingo...
segunda-feira, 10 de março de 2008
Planeta Demodê

Podemos citar, por exemplo, a moda do antiamericanismo. Por ironia do destino, os conterrâneos dos recordistas no que diz respeito à popularidade (Mickey Mouse e All Star), desfilam na passarela principal da “não preferência” mundial.
A sensação de inimizade pelo “país das maravilhas”, seus costumes e ideologias circulam pelo mundo, embora essa rejeição não se aplique a seus sanduíches, calçados e estrelas de cinema.
Ninguém sabe ao certo porque gostar ou não de uma nação. Ninguém encara cada americano individualmente. Eles viraram um só cidadão, representados pela fome capitalista de poder, lembrados por seus olhos azuis, seus negros esportistas e suas bombas potentes.Porém, os acessórios citados não são suficientes para garantir a unanimidade quanto à recusa mundial, e a grife do estimado Bush encontra forte ameaça nas coleções outono inverno do terrorismo oriental, o que gera um confronto acirrado entre verdadeiros mestres na bizarra moda da violência.
Além disso está em alta seqüestrar estrangeiros mas a farda não será valorizada na próxima estação. Você pode abusar do rifler, metralhadora, granada, e bombas de efeito moral. Incremente o visual com um pouco de xenofobia, abuse do patriotismo se você é americano e aposte num futuro incerto se você é árabe.
Extermine jornalistas. A imprensa não acompanha a moda, e só ocupa espaço.
Por aqui, o auge é seqüestrar mãe de jogador de futebol, aumentar passagem de ônibus, comprar avião e roubar ambulâncias, além de participar de um reality show e contratar argentinos para realizar especialidades tipicamente brasileiras.
Claro que assim como o jeans existem coisas que às vezes caem no conceito da população, mas sempre conseguem reconquistar a preferência nacional. É o caso da corrupção, que vira e mexe, nos proporciona acompanhar com verdadeiro deslumbre a astúcia, elegância e facilidade com que alguns (vários) representantes da famosa grife dos engravatados conseguem exercer a atual função da política mundial: extorquir.
Existe ainda a moda do “preto e branco”, dois em um. É o atual “rouba, mas faz”, que pode ser usado separadamente com um toque muito moderno: “só rouba” e “nada faz”.
E a coisa não para por ai. A igreja também cedeu aos encantos do modismo, e os Padres pedófilos prometem arrasar na próxima estação, contando com a companhia de ilustres poptars, detentores de um poder aquisitivo alto o suficiente para não serem obrigados a se submeterem à onda do “xadrez”: muito utilizado nos subúrbios, mas que definitivamente, não combina com a elite. E por ai vai. A moda toma conta dos nossos dias, tornando cada um de nossos movimentos vitimas do controle absurdo, mas sutil, exercido pelas chamadas “instituições da sociedade moderna”, e atualmente, está na moda calar-se diante de tudo aquilo que possa exigir ir contra uma imposição superior, fazendo com que a única saída que nos resta seja reservar não mais que um minuto de nossos dias para que uma prece silenciosa e mundial seja feita: Deus salve a América.
E ainda que algumas milhares de pessoas enxerguem Deus falando inglês, e a América estando ao norte, a esperança é a de que se houver um poder divino regendo nossas vidas, ele entenda “América” como “Américas”, e compreenda que ainda não está na moda incluir África e Ásia na salvação, mas a Europa tem caminhado muito bem para merecer seu lugar ao sol, e a Oceania...Bom, acho que nem existem poços de petróleo por lá...
domingo, 9 de março de 2008
Sobre as flores
Reprimida, regulada, rejeitada.
Comprimida desumanamente. E quase sendo expressa num grito desregular, desafinado. Mas não!
Liberar sensações por gritos é mera ilusão. Se todos os ódios e amores fossem declarados por berros haveria bem menos homicídios. E suicídios também.
Mas não é isso o que queremos. O que vamos comentar no dia seguinte?
Eu, como coadjuvante disposta a seguir esse roteiro inerte permaneço calada. Não há nada a declarar.
Na verdade até há. Mas sua irrelevância diante de tudo é tão maior que minha coragem em sair falando desesperadamente.
Falar desesperadamente...quanta saudade de fazer isso.
De não ter medo de dizer, de não ter receio em pensar. De orgulhar-se de possuir uma visão dissemelhante.
Por anos cultivei isso. Essa vontade inócua de ser diferente de todo o resto, de ser eu mesma. E agora, acabo aqui, nas garras predatórias de um futuro coletivo: vítimas.
Somos vitimas de um sistema bruto, que exalta a dor, que exalta o banal. Que oprime a arte e seus seguidores órfãos.
Ahhh....eu e esse meu peito, cheio de outras coisas. Quanta coisa a dizer. Quanta vontade refreada.
Está aqui, guardada a sete chaves....
Reprimida, regulada....acho que já falei isso hoje.
Vou me levantar daqui, vou até o quintal regar as flores mortas. Cultivar coisas mortas me faz crer na vida, e repensar as atitudes. Estranha essa sensação, mas elas precisavam ser citadas....as flores.
E quando elas não me servirem mais para regar, eu calço meus chinelos e volto pra cá...Pro meu interior desconhecido, pro meu vazio próprio.
Mas não tenha pena, não me olhe com essa cara....
Eu ainda estou melhor que muita gente.
Você, por exemplo, tem ao menos um vazio para chamar de seu?
sábado, 16 de fevereiro de 2008
O Tempo

Pelos movimentos da cortina na janela do quarto constatou que um forte vento rasgava o ar daquela segunda feira.
Com mais preguiça do que o normal, e com a certeza de que nunca sentira tanto sono na vida, ela se levantou, e esfregando os olhos calçou os chinelos.
O tempo lá fora não estava bom...
“Preciso ir ao banco”, pensou ela enquanto tentava identificar sua escova de dente dentre tantas tranqueiras no armário do banheiro. “Mas preciso estudar... acho q não vai dar tempo”, concluiu o pensamento.
Saiu de casa com todas as blusas que pode encontrar. “Fico tão mais gorda no inverno... culpa do tempo”. Passou pela catraca do metrô empurrada pelas outras pessoas apressadas que pareciam ter mais urgência que ela em chegar em seus destinos. Todas, observou distraída Valéria, não paravam de consultar seus relógios de pulso.
No vagão, um japonês estranho sentou-se ao seu lado. Aparentava ter mais de 80 anos, e lia uma edição antiga de um jornal oriental. Pendurado no pescoço, uma carteira de identidade amarelada com os dizeres “IMIGRANTE” em vermelho, indicava seu nome: “Yoshihiro Takeshi Kondo”. Abaixo do nome, a fotografia de um jovem bonito, galante “que deve ter dado muito trabalho”, pensou ela. “A senhorita pode me avisar quando chegarmos à Liberdade?”, perguntou ele a Valéria com um sotaque quase impossível de se traduzir.“Daqui a duas estações” disse ela sem animo depois de conferir o horário em seu celular.
Com uma cara de espanto, o velho japonês segurou o braço de Valéria e perguntou novamente. “A Liberdade? Só duas estações para encontrá-la?”. Com cara de espanto maior que a que ele havia feito, Valéria acenou que sim com a cabeça.
“E você desce lá, né?” Perguntou ele novamente.
“Não, não! Eu desço algumas depois”.
Com um olhar de decepção, o velho japonês se levantou e posicionou-se com dificuldades perto da porta de saída.
Deixou no banco do metrô o jornal que estava lendo. Valéria, por pura curiosidade, pegou-o para olhar.
Na primeira linha, entre muitos “rabiscos de japonês” havia uma frase escrita de lápis em português: ”Bomba atômica – O dia em que o Sol desabou”.
Duas linhas abaixo da manchete traduzida, mais anotações em português: ”(...) carbonizados, como tantos outros, Miaka Kondo e Suehiro Kondo (...) muitos japoneses tentaram a liberdade (...) ficará para a história como avanço tecnológico, e para nós como memória de terror que o tempo não pode apagar”.
No cabeçalho, ela conferiu a data de publicação: 10/08/1945, e ao lado os dizeres “otenki = tempo”.
Olhou para o relógio novamente, mas não para conferir as horas. “Tempo”, pensou ela “Anacrônico, mas tempo”. Olhou para as pessoas empacotadas de roupas do lado de fora do vagão. “Tempo... climático, mas tempo”. Olhou para as marcas amareladas do jornal e para data no topo da pagina. “Tempo”.
Pensou na Liberdade...no bairro. E pensou na escravidão “Como dependemos do tempo”.
Enrolou o jornal com cuidado, colocou-o no meio de seus materiais e desceu do vagão. Passou para a outra plataforma, e pegou o metrô de volta. “Estação Liberdade” indicou a voz mecânica. Posicionou-se para descer e pensou: “será que consigo devolvê-lo? Espero que ainda de tempo”.
Cíntia Carvalho
quarta-feira, 12 de dezembro de 2007
Triste vitória -
Todos os dias a gente passava por ali.
O Pedro, com seu corpo curvado, as pernas longas demais para a idade, os joelhos saltados numa magreza assustadora.
O Bola, que como o próprio apelido diz, formava uma grande esfera rosada, de bochechas brilhantes e cabelos claros, cujas mãos lembravam dois pãezinhos franceses, onde já não sei viam os espaços entre um dedo e o outro.
Tino, o líder da trupe. Quase um ano mais velho que todos nós. De jaqueta de couro, topete escovado e all star vermelho. O terror da rua, o mais respeitado da quinta série. O mais bonito.
Eu...nem gordo, nem magro. Altura mediana. Simpático.
Passávamos com calma por aquela calçada, silenciosamente. A emoção em avistar o casarão semi-abandonado, a expectativa em notar o balanço da cadeira na varanda, e a imensa nuvem negra de um cigarro fedorento que anunciavam a desejada presença. Sim! Ele estava lá de novo. Esteve lá todas as tardes desde que nos mudamos, quando tínhamos todos 9 anos (exceto Tino que já havia chegado nos sonhados dois dígitos).
O mesmo ritual ridículo. Sentar na cadeira. Ascender o cigarro. Beijar a aliança em memória da esposa falecida Balançar, balançar, balançar....até cochilar. Isso nos irritava. E era nessa hora, no cochilo, que a gente costumava agir.
Nos armávamos com as maiores pedras que achávamos no caminho entre a escola e a casa do velho. Guardávamos todas nos bolsos, e preparávamos nossas táticas de guerra em silencio. Sem trocar uma palavra. Ritualmente. Todos os dias, durante 3 anos.
Não me pergunte da emoção. Hoje, com mais de 30, também me parece tudo estupidez. Mas estar lá era inexplicável. Ouvi-lo aos berros enquanto corríamos. Observa-lo juntar os cacos de mais uma janela partida pela nossa mira infalível...tudo isso nos causava uma excitação, que, arrisco dizer, hoje comparo com as do sexo.
O Bola sempre achava que íamos morrer. Que seríamos pegos pela polícia...mas nada nunca aconteceu. Sempre deu certo, até aquele dia...
Passamos por lá de novo, já armados. O sol ardia. O Bola suava. O Tino chutava coisas no chão. Eu preparava minhas táticas, seguindo-os apenas por inércia. Sem me concentrar no caminho que fazíamos.
Paramos. Achei que estávamos em frente ao casarão. Mas não... estávamos um pouco antes de onde era costume.
Uma movimentação considerável no grande portão de frente pra varanda.
Nem balanço, nem fumaça.
Pára-médicos.
Sirene.
Luto.
Nunca havia pensado na possibilidade.
Um corpo era retirado, envolto em um lençol branco, na maca suspensa por dois homens fortes.
A mão velha pendia ao lado, descoberta. A aliança refletia a luz do sol, e cegava quem a olhasse diretamente.
Ele estava morto.
Observamos a movimentação de longe.
O silêncio permaneceu por alguns minutos, enquanto digeríamos tudo...foi quebrado apenas pelo grito de alegria do Pedro.
- Vencemos!
Sim! Era isso. Havíamos vencido. O inimigo havia sucumbido. Doze anos nas costas e uma vitória brilhante contra um...um...contra ele!
Corremos pela rua juntos. Gritávamos como se nossos times fossem campeões.
Ahhh....a sensação de glória. Nunca me esqueço dela.
Fomos pra casa nos estapeando, em sinal de felicidade. Empurrando um contra o outro. Atravessando a rua sem olhar pros lados.
Enquanto todos caminhavam para suas casas, eu e Tino continuamos juntos até nossos portões geminados.
- Parabéns, soldado.
- A você também, capitão.
Ele se virou. Caminhou de costas pra mim.
Fiquei a sós, com o sol das três torrando meus neurônios.
Só pensava na satisfação.
Abri a porta. Minha mãe preparava café na cozinha. O cheiro tomava conta da casa. Tirei a blusa da escola.
Estava pesada....
Esvaziei os bolsos...cinco pedras foram postas no canto do quarto, próximo a porta.
As observei por um minuto, e pensei no fato de nunca mais ter de usá-las...
Pensei nos amigos. No que faríamos daqui pra frente na saída da escola.
Pensei na possibilidade de que talvez, assim como eu, todos eles estivessem chorando.


